sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO ALCIDES CONTADA PELO JORNALISTA NETO RODRIGUES.

O título pode ser até forte, mas a história que contarei a seguir não é de desgraça. Ela é forte, cheia de reviravoltas e o final… Bom você chega lá. Também começo a contar a história de Joana D’arc Henzel , seu marido, o Ronaldo e ONG, a Pão é Vida.
Retomando
Alcides José Nascimento nasceu em 23 de junho de 1996. Criado na comunidade de Baixas, sertão do Moxotó, no estado de Pernambuco, esse pernambucano, sertanejo orgulhoso de 21 anos cresceu na região que já foi considerada a mais miserável do país. Há duas décadas, na comunidade de Baixas, água e alimentos eram muito escassos. Os índices de mortalidade infantil eram altíssimos, Alcides já era um sobrevivente ao completar um ano de vida.
Dá infância difícil, o jovem lembra que a água era a maior dificuldade.
“Alguma coisinha sempre tinha pra comer. Lembro que quando a mãe ia lavar roupa na bica, levava a gente, açúcar e farinha pra misturar na água e a gente comer. Ou levava rapadura, misturava na água e dava pra gente beber”, recordou.
O sentimento de “esquecimento” de sua comunidade é outra lembrança de infância. “Os políticos não olhavam pra cá não. Fizeram um poço, botaram um cabra aí pra cuidar da água, ele recebia do governo pra ligar a bomba, pessoal ia lá na casa dele pedir pra ligar, ele dizia que ia mandar água e não mandava. Ninguém nunca fez nada. As estradas “num tem”, na escola professor chegava, recolhia os alunos umas oito da manhã, nove horas largava solto pra jogar bola, que menino não gosta de bola? E ficava lá ouvindo música. Era assim a vida, tudo difícil, muito sofrido”.
Das boas lembranças, caçar com os amigos tirou um largo sorriso do seu rosto na hora de contar. “Carne é sempre pouca né, então a gente saía, eu mais um amigo, para caçar. Caçava Cagambá, muito”.
Como o cagambá é um gambá, pedi a ele sobre como preparava a carne, se tinha gosto ruim. “A carne do cagambá tem aquele gosto do cheiro que ele tem né? A gente matava, fazia uma fogueira ali mesmo, queimava os pelos, limpava bem. Só que mesmo que você limpe, tire a bolsinha onde fica o “xixi” que ele espirra, ainda fica cheiro e gosto. A gente cozinha bem, tem uns que não gostam, mas dá pra “cumê sim” “, explicou o jovem.
Só que a vida sem perspectiva, no lugar que, como chegaram a dizer, Deus havia esquecido, começou a afundar para Alcides. “Com 12 anos eu já bebia cachaça todo dia e fumava maconha. Eu bebia e fumava, um pouco para me divertir, um pouco por desgosto. Sabe como é né. A região é pequena, mas sempre tem um bar. Daí o cabra bebe porque tá feliz, porque tá triste, porque quer esquecer. Bebe, bebe todo dia. Maconha até tinha pouco, eu bebia mesmo, bebia cachaça direto”, confidenciou.
Pausa
Pedi a ele se poderia seguir relatando sua história daqui para frente, ele disse que tudo bem. Que já era passado.
Seguimos
Não demorou muito e Alcides foi aliciado por alguns homens que ofereciam trabalho em roças que ficavam em meio aos canyons da região. Ainda menino, pré adolescente, muito novo, aceitou o convite para ir trabalhar no cabo da enxada. “Era plantação de maconha. Tinha que plantar os pés”, revelou.
Entre as montanhas que cercam a região de Baixas, ele trabalhou no plantio da erva por um tempo. É um sistema combatido pelas forças de segurança, mas como a região é de difícil acesso, em meio às cordilheiras, as empreitadas contra traficantes são realmente difíceis.
Alcides sobreviveu a mortalidade infantil, sobreviveu ao vício da cachaça aos 12 anos de idade, e sobreviveu ao perigoso trabalho nas roças de Cannabis. As regras eram cruéis, em especial entre os empregados. ” Se chegasse o dono e o cabra quisesse falar com ele, tinha que ser ali, na frente de todo mundo. Se fosse falar escondido, quando voltasse já davam um jeito nele. Todo mundo desconfiado, uns já achavam que era plano pra matar os outros, aí já viu né”.
Outro risco era o de ataques de bandos de fora, que podiam chegar a qualquer momento para roubar a produção.
” Entravam matando todo mundo né”.
Neste tempo, Alcides perdeu seu melhor amigo, vítima de uma depressão que o levou ao suicídio. ” A gente trabalhou junto lá na roça de maconha. Era falante, um cabra bom. Aí começou a ficar quieto, desiludido, parou de falar. Morreu de se enforcar”. Neste momento vi a tristeza nos olhos de Alcides, que baixou a cabeça , talvez lembrando do amigo.
O garoto que já estava desiludido da vida, ficou ainda mais desamparado. Pesou o fardo de todas as coisas que havia vivido, feito. “Chegou um tempo que eu só queria morrer, só queria acabar com aquela vida”.
Uma palavra, um conforto e uma oportunidade. Foi o que salvou Alcides .
Baixas é uma região pouco assistida e amparada pelo poder público. Os investimentos da União, por exemplo, jamais chegaram aqui. Porém, a iniciativa de pessoas comprometidas em ajudar a comunidade , aos poucos começou a mudar essa realidade.
Há dez anos, Joana e Ronaldo decidiram vir para o nordeste, em especial o sertão, e começar um trabalho com a comunidade de Baixas. Ronaldo é empresário e também teólogo e pastor da Igreja Batista. Inicialmente fixaram residência em Santa Cruz do Capibaribe, cidade próxima, e lá assumiram a congregação Batista local. Porém, Baixas parecia mesmo ser sua morada e destino, como mesmo me contaram.
Após um tempo trabalhando com a comunidade, vindo de tempos em tempos, decidiram que morariam lá. Com os recursos que tinham, fruto da venda de sua casa no município de Pelotas, no Rio Grande do Sul, compraram um “pedaço de chão” em Baixas armaram uma barraca de lona preta e começaram o seu sonho de, pela ONG Pão é Vida, de trabalhar pela comunidade que um dia disseram ter sido esquecida por tudo e todos.
Enquanto lutavam para reconstruir a vida no lugar que muitos diziam “ter sido esquecido por Deus”, começaram a trabalhar pela comunidade. Além do foco em captar recursos e donativos que viabilizassem água e alimentos as famílias, passaram a promover um trabalho social.
Joana é assistente social, tem lida com famílias em estado de vulnerabilidade social. Ergueram aqui diversas ações. Perfuração de poços, aulas de artesanato, atendimento a comunidade, coleta de alimentos, donativos. Um trabalho de base.
Com o tempo, conseguiram uma grande empresa para apoiar a causa. Construíram um ambulatório odontológico equipado, uma sala de aula para educação de jovens e adultos, alfabetização de crianças, jovens e adultos, enfim. Foram lutando dia, após dia, e colhendo os frutos.
Em meio a todo esse trabalho, Ronaldo soube, por moradores da história de Alcides. “Não era incomum a notícia de gente cometendo suicídio aqui. O desespero era tamanho, que eles alguns iam para o meio da caatinga e se enforcavam. Me avisaram que havia um garoto falando que faria isso”, recordou.
Como pastor, Ronaldo procurou conversar com o garoto. O convidou para ir a um culto, no domingo. Eles também construíram uma igreja na localidade, e passou a se relacionar com Alcides. “Lembro que ele veio e me deu uma “biublia”. Eu peguei ela e comecei a ler né. Aí fui aprendendo, entendendo”, disse Alcides.
Ronaldo lembra que quando começou a se aproximar mais de Alcides, o jovem foi sincero. “Ele me disse que havia feito coisas ruins, que não era uma pessoa boa. Nós acolhemos ele, passamos a fazer um trabalho muito próximo dele”.
Voto de confiança
Numa tarde de trabalho em seu pedaço de terra, Ronaldo lembra que Alcides chegou e foi direto ao assunto . “Eu preciso de um trabalho, qualquer coisa. O que o senhor tiver eu faço”. Ronaldo precisava decidir se dava ou não a oportunidade. Precisava de alguém de confiança, precisava de um apoio, pois o trabalho era e é duro, pesado. “Rapaz, eu pensei, pensei. Decidi dar a oportunidade. Disse a ele: Não estou lhe dando só um trabalho, é uma oportunidade”, frizou.
Alcides passou a trabalhar e com o tempo mostrou que não só era digno da oportunidade, mas também de confiança. As coisas começaram a mudar. “Foi então que depois de um tempo ele me disse que iria casar. Perguntei a ele se já estava preparado para ter um pedaço de chão. Ele disse que queria comprar, mas o dinheiro não dava. Disse a ele: então guarda, economiza”.
Porém , com muitos parentes , seu dinheiro era consumido com facilidade quando chegava. “Ele me disse que não conseguia guardar nada, porque um pedia ajuda, outro pedia ajuda. Orientei ele a guardar no banco, mas ele não tinha conta. Então ele me pediu para guardar comigo. Eu não tinha como.o guardar”.
A solução encontrada por Ronaldo foi a de dar a Alcides uma caixa de sapatos e deixá-la numa prateleira no depósito da ONG. ” Toda semana a gente conferia junto, todo mês. Até que um dia apareceu um pedaço de chão. O cara queria cinco mil, Alcides tinha R$2.800,. Disse a ele, ofereça R$ 2.500″.
Após duas ou três tentativas, finalmente saiu negócio. Por R$ 2.800,00 , o menino que começou a tomar cachaça com 12 anos e ainda na adolescência chegou a ser aliciado pelo crime para trabalhar em plantações de maconha, tinha seu pedaço de chão. “Aí ele precisou construir. Disse a ele: comece tudo novamente, guarda” .
Novamente Alcides passou a guardar e quando tinha cerca de R$ 3 mil, Ronaldo novamente o orientou . “Começa a casa. O dinheiro é pouco, mas começa ela. Faz a fundação, uma coisinha aqui outra ali, disse a ele”, contou o pastor.
Alcides, que falava em colher lenha e revirar barro para erguer uma casa de taipa, começou então a fundação de uma residência de alvenaria. “Aí o pastor Ronaldo me ajudou, colocou um dinheirinho lá e eu terminei ela”, lembrou Alcides.
Casado há sete meses, Alcides saiu de um risco real de suicídio, para uma vida nova e cheia de esperança. Ronaldo, o pastor com quem trabalha, ainda está construindo a sua casa. Até pouco tempo, ele é Joana moravam num quarto dentro do Barracão da ONG que fundaram e trouxeram para as comunidades de Baixas.
Alcides, no fim da conversa , falou em nome de toda a comunidade . Disse que a vida mudou e melhorou para todos nos últimos anos. Investimentos de voluntários, sociedade civil organizada, trouxeram a comunidade de Baixas água, dignidade, perspectiva. “Antes das ONGs, da Joana, do pastor Ronaldo chegarem, ninguém olhava por nós aqui. Por Deus que ainda tinha o Bolsa Família pra ajudar. Porque o povo vivia de cortar lenha pra vender , as vezes o comprador bem pagava, dava calote. Tinha que sair de jegue pra buscar água, éramos nós por nós aqui. Hoje é tudo melhor, diferente. É difícil, a vida é essa, mas a gente vai seguindo”, concluiu. http://alemdomeuumbigo.com.br/teve-um-tempo-que-era-tao-dificil-que-so-pensava-em-morrer/

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