HISTÓRIAS

Onde os fracos não têm vez
José Cícero do Nascimento, 48 anos, pai de oito filhos, seis deles ainda vivos. Um homem do sertão, um sobrevivente. O Tota, como é conhecido, é um daqueles homens que fez o impossível para viver, criar os filhos, prover a família.
Dos tempos de falta de água, ele lembra das intermináveis caminhadas até às montanhas que cercam os sítios de Baixas, no sertão do Moxotó, no interior de Pernambuco. “Levava as cabras lá, nas Serra, soltava para comer e todo dia precisava levar água a elas”. Um trecho de mais de 15km de ida e outros 15km de volta. Tudo isso em meio a caatinga, subindo encostas, debaixo do Sol forte que castiga o sertão.
Antes, uma longa caminhada para buscar água, no único poço que havia na comunidade. “Era sofrido, muito. Tinha dias que eu falava que não voltava mais na Serra, só que no outro dia, tinha que fazer tudo de novo. Só tinha as cabras. Aqui não nascia nada. Tudo seco, sem água”.
Isso foi há mais de cinco anos, antes da chegada da ONG Pão é Vida na comunidade. Idealizada por Joana D’arc Henzel e seu marido Ronaldo Henzel, a Organização é a grande responsável pela mudança da história de Baixas e seus moradores. Só que isso é história para o Documentário que estou produzindo é também para textos futuros.
No entanto, o trabalho de Joana e Ronaldo, totalmente desvinculado de qualquer forma de governo ou sistema político trouxe para esse povo fatura e uma perspectiva de desenvolvimento em médio e longo prazo.
O seu Tota é um, entre tantos moradores locais, beneficiado com o trabalho da ONG que busca recursos com empresas e pessoas para perfurar poços, construir cisternas, desenvolver a criação de pomares, plantio de melancias, feijão, milho. Além disso, atua na saúde preventiva, saúde bucal, trazendo médicos e dentistas para atender a população. Com recursos próprios e de parceiros, eles construíram até mesmo um clínica odontológica em Baixas.
O projeto é uma realidade, dezenas de famílias hoje plantam, colhem, criam animais de pequeno porte e tem o elemento essencial da vida, água.
Graças ao trabalho de Joana e Ronaldo, aliado a garra e a vontade deste povo de crescer e prosperar, o deserto que um dia foi Baixas está se tornando um Oásis. O lugar onde os fracos não têm vez está sendo vencido pouco a pouco. O que mudou na vida do seu Tota e muita gente? 
 Por Neto Rodrigues - http://alemdomeuumbigo.com.br/onde-os-fracos-nao-tem-vez/


O bom exemplo de Joana e Ronaldo

Eles mudaram de vida para mudar a vida das pessoas. Joana D’arc Henzel e Ronaldo Henzel foram e serão para mim uma grande inspiração, um exemplo de entrega, propósito e amor a vida, ao próximo, ao futuro deste país.
Esse casal abriu mão de uma vida confortável no Rio Grande do Sul, para trabalhar dia e noite, de Sol a Sol, pelo projeto de tornar o Vilarejo Baixas, no sertão do Moxotó, em Pernambuco,um verdadeiro oásis. É muito trabalho, árduo e eles enfrentam com coragem e ânimo.
A ONG criada por eles, a ONG PÃO É VIDA, é uma entidade que vive e sobrevive com recursos e parcerias de pessoas que se engajam na mesma corrente solidária de Joana e Ronaldo. Não há recursos de governo, não há vínculos políticos, não há nada além de uma grande corrente do bem.
Para entender o que estou falando de verdade, seria o caso de ficar sete dias aqui, como eu fiquei. Certamente você que lê teria uma noção básica que eu tive sobre o que é viver no sertão. A presença de Ronaldo e Joana aqui mudou a vida do povo, das crianças jovens e idosos.
Eles pisaram em Baixas a primeira vez em meados da década de 2000. Começaram vindo a cada quinze dias ( nessa época já moravam em Pernambuco, Santa Cruz do Capibaribe uma cidade próxima), depois em todos os finais de semana e há quase dois anos, mudaram-se em definivo para cá.
O deserto que era Baixas, onde a fome e a miséria ceifavam vidas pequenas, recém nascidas, de forma assustadora, foi aos poucos se tornando uma terra fértil e produtiva. Ronaldo e Joana, junto com outras ONGs e pessoas, deram vida e perspectivas promissoras a Baixas.
É um trabalho de formiguinha. Em seu “pedaço de chão” o casal trabalha muito, muito mesmo. Como tudo que se implanta ali tem como foco a aplicação nas casas de toda a comunidade, Joana e Ronaldo não passam um minuto do dia parados.
Do formoso pomar a colorida horta, passando pelos chiqueiros, o curral das vacas e um lindo emoções galinheiro, tudo é feito, plantado, criado por eles. Acreditando na corrente do Bom Exemplo, procuram repassar muita coisa aos mais novos, as crianças.
Nessa levada frenética de um sonho para ambos, eles já começam a acompanhar o surgimento das primeiras hortas e pomares no Vilarejo. Joana fica orgulhosa e radiante, Ronaldo sorri entendendo que nada daquilo será em vão.
Os pomares e as plantações de melancias também estão presentes e prosperando. Aos poucos o povo está cercando melhor suas terras, criando suas próprias verduras e legumes. Criando cabras, produzindo é muito.
Isso só foi possível graças ao trabalho de Joana e Ronaldo que buscaram parceiros e amigos que se solidarizam com a causa e toparam ajudar muito.
Cerca de oito poços perfurados por Joana e Ronaldo, funcionam a todo vapor na comunidade. Desde que chegaram aqui já conseguir construir e equipar uma clínica odontológica para atender a comunidade. Com recursos próprios, muitas vezes tirados do próprio bolso, custeiam o material e o combustível dos dentistas que fazem os procedimentos gratuitamente. Toda a comunidade é atendida.
Outra obra feita pelo casal foi a construção do Espaço Pedagógico, onde as crianças recebem reforço escolar e oficinas variadas. Atualmente estão construindo, também com recursos próprios a primeira Biblioteca de Baixas. Na sexta-feira, Ronaldo amanheceu virando massa de cimento no Sol forte para que o sonho se torne realidade.
Já foi possível, por intermédio do trabalho da ONG, construir diversas casas de alvenaria aos moradores locais, colocando abaixo as velhas casas de Taipa (barro e madeira). Ronaldo e Joana trabalham ainda na conscientização e na educação para a sustentabilidade. Como eles mesmo dizem, as pessoas precisam ser emancipadas e ter condições de levar uma vida digna e independente.
Com este olhar, trabalham muito para implantar a cultura da agricultura familiar sustentável, e buscam a todo momento novos parceiros para manter os poços em funcionamento. Vivem essa realidade de domingo, a domingo, 365 dias por ano.
Sua dedicação e devoção ao futuro de Baixas é a maior lição que aprendi em toda a minha vida. Eles não precisavam estar aqui. Eles estão por que querem, não se vangloriam, muito menos reclamam de nada. Apenas seguem seu coração, trabalham pelas mais de 300 famílias que vivem por aqui e ainda encontram tempo para receber um jornalista de Curitiba por uma semana e dar a ele um tratamento de pai e mãe. Fonte: http://alemdomeuumbigo.com.br/o-bom-exemplo-de-joana-e-ronaldo/



  “Teve um tempo que era tão difícil, que só pensava em morrer”
O título pode ser até forte, mas a história que contarei a seguir não é de desgraça. Ela é forte, cheia de reviravoltas e o final… Bom você chega lá. Também começo a contar a história de Joana D’arc Henzel , seu marido, o Ronaldo e ONG, a Pão é Vida.
Retomando
Alcides José Nascimento nasceu em 23 de junho de 1996. Criado na comunidade de Baixas, sertão do Moxotó, no estado de Pernambuco, esse pernambucano, sertanejo orgulhoso de 21 anos cresceu na região que já foi considerada a mais miserável do país. Há duas décadas, na comunidade de Baixas, água e alimentos eram muito escassos. Os índices de mortalidade infantil eram altíssimos, Alcides já era um sobrevivente ao completar um ano de vida.
Dá infância difícil, o jovem lembra que a água era a maior dificuldade.
“Alguma coisinha sempre tinha pra comer. Lembro que quando a mãe ia lavar roupa na bica, levava a gente, açúcar e farinha pra misturar na água e a gente comer. Ou levava rapadura, misturava na água e dava pra gente beber”, recordou.
O sentimento de “esquecimento” de sua comunidade é outra lembrança de infância. “Os políticos não olhavam pra cá não. Fizeram um poço, botaram um cabra aí pra cuidar da água, ele recebia do governo pra ligar a bomba, pessoal ia lá na casa dele pedir pra ligar, ele dizia que ia mandar água e não mandava. Ninguém nunca fez nada. As estradas “num tem”, na escola professor chegava, recolhia os alunos umas oito da manhã, nove horas largava solto pra jogar bola, que menino não gosta de bola? E ficava lá ouvindo música. Era assim a vida, tudo difícil, muito sofrido”.
Das boas lembranças, caçar com os amigos tirou um largo sorriso do seu rosto na hora de contar. “Carne é sempre pouca né, então a gente saía, eu mais um amigo, para caçar. Caçava Cagambá, muito”.
Como o cagambá é um gambá, pedi a ele sobre como preparava a carne, se tinha gosto ruim. “A carne do cagambá tem aquele gosto do cheiro que ele tem né? A gente matava, fazia uma fogueira ali mesmo, queimava os pelos, limpava bem. Só que mesmo que você limpe, tire a bolsinha onde fica o “xixi” que ele espirra, ainda fica cheiro e gosto. A gente cozinha bem, tem uns que não gostam, mas dá pra “cumê sim” “, explicou o jovem.

Só que a vida sem perspectiva, no lugar que, como chegaram a dizer, Deus havia esquecido, começou a afundar para Alcides. “Com 12 anos eu já bebia cachaça todo dia e fumava maconha. Eu bebia e fumava, um pouco para me divertir, um pouco por desgosto. Sabe como é né. A região é pequena, mas sempre tem um bar. Daí o cabra bebe porque tá feliz, porque tá triste, porque quer esquecer. Bebe, bebe todo dia. Maconha até tinha pouco, eu bebia mesmo, bebia cachaça direto”, confidenciou.
Pausa
Pedi a ele se poderia seguir relatando sua história daqui para frente, ele disse que tudo bem. Que já era passado.
Seguimos
Não demorou muito e Alcides foi aliciado por alguns homens que ofereciam trabalho em roças que ficavam em meio aos canyons da região. Ainda menino, pré adolescente, muito novo, aceitou o convite para ir trabalhar no cabo da enxada. “Era plantação de maconha. Tinha que plantar os pés”, revelou.
Entre as montanhas que cercam a região de Baixas, ele trabalhou no plantio da erva por um tempo. É um sistema combatido pelas forças de segurança, mas como a região é de difícil acesso, em meio às cordilheiras, as empreitadas contra traficantes são realmente difíceis.
Alcides sobreviveu a mortalidade infantil, sobreviveu ao vício da cachaça aos 12 anos de idade, e sobreviveu ao perigoso trabalho nas roças de Cannabis. As regras eram cruéis, em especial entre os empregados. ” Se chegasse o dono e o cabra quisesse falar com ele, tinha que ser ali, na frente de todo mundo. Se fosse falar escondido, quando voltasse já davam um jeito nele. Todo mundo desconfiado, uns já achavam que era plano pra matar os outros, aí já viu né”.
Outro risco era o de ataques de bandos de fora, que podiam chegar a qualquer momento para roubar a produção.
” Entravam matando todo mundo né”.
Neste tempo, Alcides perdeu seu melhor amigo, vítima de uma depressão que o levou ao suicídio. ” A gente trabalhou junto lá na roça de maconha. Era falante, um cabra bom. Aí começou a ficar quieto, desiludido, parou de falar. Morreu de se enforcar”. Neste momento vi a tristeza nos olhos de Alcides, que baixou a cabeça , talvez lembrando do amigo.
O garoto que já estava desiludido da vida, ficou ainda mais desamparado. Pesou o fardo de todas as coisas que havia vivido, feito. “Chegou um tempo que eu só queria morrer, só queria acabar com aquela vida”.
Uma palavra, um conforto e uma oportunidade. Foi o que salvou Alcides .
Baixas é uma região pouco assistida e amparada pelo poder público. Os investimentos da União, por exemplo, jamais chegaram aqui. Porém, a iniciativa de pessoas comprometidas em ajudar a comunidade , aos poucos começou a mudar essa realidade.
Há dez anos, Joana e Ronaldo decidiram vir para o nordeste, em especial o sertão, e começar um trabalho com a comunidade de Baixas. Ronaldo é empresário e também teólogo e pastor da Igreja Batista. Inicialmente fixaram residência em Santa Cruz do Capibaribe, cidade próxima, e lá assumiram a congregação Batista local. Porém, Baixas parecia mesmo ser sua morada e destino, como mesmo me contaram.
Após um tempo trabalhando com a comunidade, vindo de tempos em tempos, decidiram que morariam lá. Com os recursos que tinham, fruto da venda de sua casa no município de Pelotas, no Rio Grande do Sul, compraram um “pedaço de chão” em Baixas armaram uma barraca de lona preta e começaram o seu sonho de, pela ONG Pão é Vida, de trabalhar pela comunidade que um dia disseram ter sido esquecida por tudo e todos.
Enquanto lutavam para reconstruir a vida no lugar que muitos diziam “ter sido esquecido por Deus”, começaram a trabalhar pela comunidade. Além do foco em captar recursos e donativos que viabilizassem água e alimentos as famílias, passaram a promover um trabalho social.
Joana é assistente social, tem lida com famílias em estado de vulnerabilidade social. Ergueram aqui diversas ações. Perfuração de poços, aulas de artesanato, atendimento a comunidade, coleta de alimentos, donativos. Um trabalho de base.
Com o tempo, conseguiram uma grande empresa para apoiar a causa. Construíram um ambulatório odontológico equipado, uma sala de aula para educação de jovens e adultos, alfabetização de crianças, jovens e adultos, enfim. Foram lutando dia, após dia, e colhendo os frutos.
Em meio a todo esse trabalho, Ronaldo soube, por moradores da história de Alcides. “Não era incomum a notícia de gente cometendo suicídio aqui. O desespero era tamanho, que eles alguns iam para o meio da caatinga e se enforcavam. Me avisaram que havia um garoto falando que faria isso”, recordou.
Como pastor, Ronaldo procurou conversar com o garoto. O convidou para ir a um culto, no domingo. Eles também construíram uma igreja na localidade, e passou a se relacionar com Alcides. “Lembro que ele veio e me deu uma “biublia”. Eu peguei ela e comecei a ler né. Aí fui aprendendo, entendendo”, disse Alcides.
Ronaldo lembra que quando começou a se aproximar mais de Alcides, o jovem foi sincero. “Ele me disse que havia feito coisas ruins, que não era uma pessoa boa. Nós acolhemos ele, passamos a fazer um trabalho muito próximo dele”.
Voto de confiança
Numa tarde de trabalho em seu pedaço de terra, Ronaldo lembra que Alcides chegou e foi direto ao assunto . “Eu preciso de um trabalho, qualquer coisa. O que o senhor tiver eu faço”. Ronaldo precisava decidir se dava ou não a oportunidade. Precisava de alguém de confiança, precisava de um apoio, pois o trabalho era e é duro, pesado. “Rapaz, eu pensei, pensei. Decidi dar a oportunidade. Disse a ele: Não estou lhe dando só um trabalho, é uma oportunidade”, frizou.
Alcides passou a trabalhar e com o tempo mostrou que não só era digno da oportunidade, mas também de confiança. As coisas começaram a mudar. “Foi então que depois de um tempo ele me disse que iria casar. Perguntei a ele se já estava preparado para ter um pedaço de chão. Ele disse que queria comprar, mas o dinheiro não dava. Disse a ele: então guarda, economiza”.
Porém , com muitos parentes , seu dinheiro era consumido com facilidade quando chegava. “Ele me disse que não conseguia guardar nada, porque um pedia ajuda, outro pedia ajuda. Orientei ele a guardar no banco, mas ele não tinha conta. Então ele me pediu para guardar comigo. Eu não tinha como.o guardar”.
A solução encontrada por Ronaldo foi a de dar a Alcides uma caixa de sapatos e deixá-la numa prateleira no depósito da ONG. ” Toda semana a gente conferia junto, todo mês. Até que um dia apareceu um pedaço de chão. O cara queria cinco mil, Alcides tinha R$2.800,. Disse a ele, ofereça R$ 2.500″.
Após duas ou três tentativas, finalmente saiu negócio. Por R$ 2.800,00 , o menino que começou a tomar cachaça com 12 anos e ainda na adolescência chegou a ser aliciado pelo crime para trabalhar em plantações de maconha, tinha seu pedaço de chão. “Aí ele precisou construir. Disse a ele: comece tudo novamente, guarda” .
Novamente Alcides passou a guardar e quando tinha cerca de R$ 3 mil, Ronaldo novamente o orientou . “Começa a casa. O dinheiro é pouco, mas começa ela. Faz a fundação, uma coisinha aqui outra ali, disse a ele”, contou o pastor.
Alcides, que falava em colher lenha e revirar barro para erguer uma casa de taipa, começou então a fundação de uma residência de alvenaria. “Aí o pastor Ronaldo me ajudou, colocou um dinheirinho lá e eu terminei ela”, lembrou Alcides.
Casado há sete meses, Alcides saiu de um risco real de suicídio, para uma vida nova e cheia de esperança. Ronaldo, o pastor com quem trabalha, ainda está construindo a sua casa. Até pouco tempo, ele é Joana moravam num quarto dentro do Barracão da ONG que fundaram e trouxeram para as comunidades de Baixas.
Alcides, no fim da conversa , falou em nome de toda a comunidade . Disse que a vida mudou e melhorou para todos nos últimos anos. Investimentos de voluntários, sociedade civil organizada, trouxeram a comunidade de Baixas água, dignidade, perspectiva. “Antes das ONGs, da Joana, do pastor Ronaldo chegarem, ninguém olhava por nós aqui. Por Deus que ainda tinha o Bolsa Família pra ajudar. Porque o povo vivia de cortar lenha pra vender , as vezes o comprador bem pagava, dava calote. Tinha que sair de jegue pra buscar água, éramos nós por nós aqui. Hoje é tudo melhor, diferente. É difícil, a vida é essa, mas a gente vai seguindo”, concluiu. Fonte: http://alemdomeuumbigo.com.br/teve-um-tempo-que-era-tao-dificil-que-so-pensava-em-morrer/

A educação que está mudando a vida no sertão


Aos poucos estou contando a história de Joana D’arc Henzel e Ronaldo Henzel aqui no sertão. É uma jornada linda, digna de pessoas que pensam muito além de seus umbigos.
O casal deixou um vida estável e confortável para viver na Comunidade de Baixas, no Sertão do Moxotó, interior de Pernambuco. O motivo? Ajudar no desenvolvimento de uma região que já foi considerada a mais miserável do país.
Hoje pela manhã, quando acordei e saí da minha casinha, vi de longe Ronaldo e Alcides virando massa de cimento debaixo do Sol. Cheguei e perguntei para que era. “É para fazer as prateleiras da Biblioteca”, me disse Ronaldo.
Perfurando poços, distribuindo alimentos, ajudando os moradores locais na criação de hortas e pomares, trabalhando a saúde preventiva, e investindo na educação das crianças de Baixas. Ronaldo e Joana seguem firmes em seu propósito de vida, o de mudar e melhorar a vida do povo de Baixas.
Chamei a Joana para gravar um vídeo explicando sobre a construção da Biblioteca e também um pouco do apoio pedagógico que eles dão as crianças da comunidade. Vale a pena assistir. Disponível em http://alemdomeuumbigo.com.br/a-educacao-que-esta-mudando-a-vida-no-sertao/
O mito da caverna - Por Neto Rodrigues
Viver no sertão me tirou a venda dos olhos. Me esclareceu muita coisa. Me ensinou muitas outras. Hoje, visitei uma colheita de melancia. Dez toneladas sendo colhidas graças aos poços e ao sistema de irrigação. Dez mil quilos de melancia sendo colhidas em meio a maior seca dos últimos cem anos. Geração de renda para uma família.
Aí você, que por ventura não pode visitar o sertão, pensa. Nossa, um programa do governo federal? Nossa, o fulano fez muito pelo Brasil. A fulana mais ainda! O cliclano então, no tempo dele a coisa andava.
Esse é o mito da caverna. As propagandas partidárias te dão a impressão que tudo é feito pelos políticos e seus belos discursos recheados de empatia. A verdade é que não. Os últimos quatro presidentes fizeram o mínimo. O programa de transferência de renda. Um criou, outro rebatizou e outros dois mantiveram. O último está cortando com foice o número de beneficiários.
É fato também que os três últimos presidentes legítimos trouxeram luz, energia elétrica para o sertão. E parou por aí. Não houve um trabalho de desenvolvimento sólido da economia no sertão. Visitei oito cidades, mais de vinte povoados. Em todos que passei, o legado é: cartão de transferência de renda e energia elétrica. Não vou aplaudir, não fizeram mais que a obrigação.
Essa roça de melancia da foto, de onde saíram dez mil quilos da fruta, só existe porque pessoas somaram forças e vieram aqui no sertão perfurar um poço para a família em questão. Alias, aqui nas Baixas, povoado que está a pouco mais de 200km do município de Caetés, berço de um idolatrado político e ex-presidente, a situação estava bem feia até o final da primeira década de 2000.
A fome aqui era prerrogativa básica para ser morador, infelizmente. De cada 10 crianças nascidas vivas, menos de seis sobreviviam aos primeiros seis meses. Morriam de fome, de sede. Apenas o bolsa família não assegurava a vida. Embora, diminuísse a fome, sejamos justos.
Porém, desde a década de 90, escutava o discurso vindo das TVs de que o Sertão estava mudando e melhorando. De fato, as pessoas dizem que melhorou. Porém, basta passar uma temporada aqui para entender que para quem não tinha absolutamente nada, o mínimo do mínimo se torna uma grande avanço. Não vai ter aplausos mesmo.
O que me chamou atenção é que não se vê um rastro de tentativa de fomentar o desenvolvimento da agricultura por aqui. O sertão é uma potência na produção de frutas e grãos. Basta ter água. Um poço custa R$ 50 mil para se perfurado, e ter o maquinário instalado. Quantos poços poderiam ter sido perfurados com o dinheiro do Mensalão? Quantos poderiam ser perfurados com o dinheiro dos Anões do Orçamento, da Lava Jato? Quantos?
Não fizeram e não farão. A indústria da seca é rentável aos "Salvadores da Pátria". Jamais permitiram que essas famílias fossem emancipadas. Mantiveram todas presas a um cartão de benefício social.
Felizmente, mesmo que em pouca quantidade, grupos de voluntários, decidiram fazer o que de fato nunca foi feito na história deste país. Graças a pessoas como Joana D'arc Henzel, Manoel Nascimento, Ronaldo Henzel, e tantos e tantos outros voluntários que conheci nessas terras, famílias como essa da foto, podem finalmente plantar e colher o ano todo.
É pelas mãos de pessoas como eu e você, que o sertão muda um pouco de figura é, mesmo que a passos lentos, vai se livrando das correntes dos coronéis, sejam eles da oligarquia, ou do proletariado.
O mito da caverna no Brasil é achar que político quer o pobre de fato se libertando da pobreza. Se isso de fato acontecer, a quem eles irão iludir com promessas de dias melhores? Os bilhões roubados do nosso país nos últimos anos poderiam ter mudado a cara do Brasil. Porém, não se atreva a dizer isso, o mito da caverna nos ensina que só existe um lado e ele passa todos os dias na TV, nos discursos prontos, nas redes sociais, nas rádios. Se você questionar, é linchado por uma legião de seguidores que não conhecem o semiárido, mas vendem os avanços que disseram existir lá. Uma pena, uma lástima. 
Vida que segue.

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